Perfil de Operadores de Máquinas Florestais de Alta Performance
Prof. Dr. Eduardo da Silva Lopes – UNICENTRO | Prof.ª Dr.ª Millana Bürger Pagnussat – UNICENTRO
A colheita da madeira tem evoluído de forma significativa no Brasil, principalmente em função dos avanços em termos de inovação tecnológica apresentados pelas indústrias de máquinas, que tem disponibilizado ao mercado florestal produtos cada vez mais modernos e de elevada capacidade produtiva. Tal fato tem possibilitado às empresas a obtenção de ganhos significativos de produtividade, maior ergonomia e segurança das operações, melhores resultados ambientais e redução dos custos de produção. Entretanto, o uso de máquinas modernas de elevada capacidade produtiva aliada aos avanços nos modelos de planejamento e manutenção não garantem o sucesso pleno da colheita de madeira, sendo fundamental ser considerado também o fator humano, que pode responder por diferenças de até 60% no desempenho entre os operadores de máquinas florestais. Por isso, a capacitação eficiente dos operadores de máquinas florestais é a base de uma operação de sucesso. Porém mesmo recebendo o mesmo treinamento, os operadores poderão apresentar variações de desempenho em termos de produtividade, qualidade e cuidados com a máquina, sendo, portanto, necessário considerar o perfil no processo de seleção.

Neste sentido, também surgem os seguintes questionamentos: Se as pessoas ainda não foram treinadas, como poderemos saber qual será o seu desempenho futuro em determinada tarefa? Como determinar quando as características de um indivíduo serão compatíveis com a função a ser desempenhada? A que se dá a facilidade no aprendizado ou no desempenho eficaz de operadores em longos períodos de tempo? E para responder tais questionamentos, pesquisadores americanos afirmaram que um indivíduo poderá aprender qualquer tarefa e desempenha-la, porém a indagação está na repetição. A falta de motivação e habilidades naturais geram dificuldades em manter a concentração, assim como, manter-se produtivo por longos períodos. Portanto, para a obtenção de um elevado desempenho, o indivíduo precisa apresentar fontes motivadoras e características individuais compatíveis com as exigências do cargo.
Importante mencionar que, a seleção de operadores de máquinas florestais tem sido realizada por meio de processos abrangentes, muitas vezes, não levando em consideração as especificidades das operações florestais, além de serem realizadas por meio de comparações, decisões e escolhas, sem um embasamento técnico-científico. E neste aspecto, elevados recursos financeiros têm sido aplicados pelas empresas florestais na seleção e na capacitação dos operadores de máquinas, que muitas vezes, por não possuir o perfil adequado ao cargo, acabam abandonando a função em pouco tempo, trazendo grandes transtornos às empresas. Além disso, a permanência destes operadores produzindo abaixo da capacidade produtiva da máquina e da meta estabelecida pela empresa comprometerá todo o planejamento, perdas de produção e elevados custos.
Estudos recentes realizados no exterior afirmam que muitas empresas florestais atuam com apenas 20% de sua potencialidade pelo fato dos indivíduos não ocuparem a função adequada ao seu perfil na qual possa empregar os seus mais fortes talentos. Portanto, o conhecimento das capacidades ou talentos individuais dos futuros operadores de máquinas florestais, por meio das características cognitivas, memória, habilidades motoras, comportamentais e atenção são fundamentais no processo de seleção, possibilitando a identificação do operador certo para determinado cargo a partir de suas capacidades naturais.
De forma sucinta, os níveis de “cognição” e “atenção” influenciam diretamente na capacidade de solução de problemas corriqueiros e diários. A “memória” influencia nas atividades repetitivas que é comum nas operações de colheita da madeira, devendo o operador possuir a capacidade de identificar os processos, os procedimentos e realizar as atividades de forma precisa e sem muito esforço. A “memória tátil”, por exemplo, permite ao operador de harvester manter a sua atenção no ambiente externo durante a execução da operação, enquanto as suas mãos manuseiam os joysticks da máquina por ser um movimento conhecido. A “habilidade motora” consiste em impulsos cerebrais e a respectiva resposta do sistema motor do corpo, não dependendo apenas do cérebro ou do físico do indivíduo, mas de sua interação. É responsável pela capacidade do indivíduo em desempenhar movimentos simultâneos de diferentes grupos musculares e executar movimentos voluntários e complexos, sendo essencial ao operador de máquinas florestais. Já o “comportamento” está relacionado com a reação das pessoas às diversas situações de trabalho, determinando o nível de agressividade ou conscienciosidade, extroversão ou timidez, bem como a atenção aos prazos, horários e detalhes do trabalho. Neste sentido, o talento ou predisposição natural do indivíduo para determinado trabalho é definido pelas conexões cerebrais (conexões sinápticas) mais fortes, recorrentes de estímulos formados e fortalecidos na infância.

Durante a pesquisa foram realizados vários estudos pilotos com o objetivo de calibrar e testar a ferramenta desenvolvida de avaliação de perfil de operadores nas máquinas harverter, feller buncher, forwarder e skidder em diferentes condições operacionais. No caso da tese de doutorado, foi então aplicada a ferramenta em uma empresa florestal, contemplando uma amostra de 43 operadores de feller buncher e skidder, sendo confrontados com os dados de desempenho de desempenho (eficiência produtiva, disponibilidade mecânica e qualidade) por um período de dois anos.
Os resultados da pesquisa mostraram que os operadores enquadraram-se em três classes distintas de perfil a partir de análises estatísticas multivariadas, ressaltando que no caso do operador de feller buncher, houve diferenças de 15 e 20% na eficiência produtiva entre os operadores nos períodos de formação e no primeiro ano de operação, respectivamente. As avaliações das características individuais demonstraram que o comportamento teve grande influência na eficiência operacional e na disponibilidade mecânica, ressaltando que a eficiência produtiva e a qualidade foram amplamente afetadas pelos indicadores de cognição, atenção focada e habilidades motoras.

Portanto, foi possível concluir que as características cognitivas, comportamentais, memória, atenção e habilidades motoras são muito importantes e devem ser consideradas no processo de seleção de operadores de máquinas florestais de alta performance, podendo a metodologia ser aplicada para todos os modelos de máquinas florestais, especialmente no harvester, forwarder, feller buncher e skidder. A metodologia de perfil poderá ainda ser aplicada nos atuais operadores em atividade, de forma a melhor identificar as suas características e subsidiar os gestores na tomada de decisão visando o gerenciamento do desempenho da equipe, formação de equipes, etc., e consequentemente, obtendo maiores ganhos de eficiência, produtividade e redução dos custos de produção.

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